Símbolo de sedução, poder, força, rebeldia e até mesmo magia e castigo, o cabelo sempre esteve presente na constituição da nossa identidade pessoal e na nossa relação com a sociedade e o mundo. Afinal, mais do que um simples elemento estético, ele está intimamente ligado à construção da nossa auto-estima e na forma como nos relacionamos e expressamos nossas emoções ao longo das diversas fases da vida. Sua forma, constituição e elaboração de penteados nos mostram como era a vida nas diferentes sociedades, em diferentes épocas e partes do mundo. Além disso, é por meio dele que damos ao mundo uma interpretação de nós mesmos.

Entre conversas no salão, soubemos que no início do mês, o hairstylist Ricardo Rodrigues, do Studio W Higienópolis, visitou a exposição Cheveux Chéri – Frivolités et trophées (Queridos Cabelos – frivolidades e troféus), no Musée du Quai Branly, em Paris. Aproveitando para saber um pouco mais sobre esse elemento que exerce um verdadeiro fascínio (principalmente entre a nossa equipe), pedimos a ele que nos contasse o que viu de mais marcante e as suas observações acerca do tema. Os principais principais pontos você confere a seguir:

Apesar de aparentar ser uma exposição relativamente pequena, a mostra reuniu cerca de 300 objetos de várias partes do mundo como esculturas, quadros, fotografias, acessórios e vídeos, que contavam um pouco sobre a importância dessa parte do nosso corpo e as transformações históricas e culturais que o cabelo acompanhou ao longo da história do homem.

Os objetos eram divididos em várias salas de acordo com o tema ou região do mundo, sendo tudo sempre envolto de muita emoção. Aliás, essa é a palavra chave que pode definir bem sobre o que a exposição faz refletir, em como a emoção e o cabelo estão muito ligados e o quanto um pode influenciar o outro.

Sob esse ponto de vista, Ricardo conta que tanto na exposição quanto no curso “O Universo da Beleza”, da FAAP, que ele acabou de realizar, pode-se perceber que o cabelo sempre foi visto como um importante componente individual e social. Afinal, em tudo ele traz emoção para o rosto, seja um cabelo curto ou longo, crespo ou liso, arrumado ou despenteado, os fios acabam nos representando e conseguem até mesmo mostrar como estamos nos sentindo em relação a nós mesmo (sensuais, rebeldes, deprimidos, confiantes, etc) e em relação a algum momento em que estejamos vivenciando (inicio de namoro, fim de casamento, começo de emprego, faixa etária, etc).

Tudo o que chamava atenção, o hairstylist parava para olhar e pensar a respeito. Em um desses momentos, ele se deparou com uma escultura de uma mulher saindo da água e segurando o cabelo, como se o mesmo servisse como uma espécie e proteção para ela. O cuidado na elaboração do projeto e a simbologia por trás dele, o prenderam por algum tempo naquele local.

O mesmo aconteceu com os bustos de várias nacionalidades, perfeitamente elaborados. Um deles, inclusive, veio do Brasil, da cidade do Rio de Janeiro e representava um homem tipicamente brasileiro, negro, com barba e cabelo crespo.

Mais adiante, em um dos ambientes, era possível observar a beleza e sensualidade hipnotizante de mulheres loiras, morenas e ruivas, representadas por grandes ícones da moda e tantas outras belas mulheres que marcaram suas épocas. E, perto dali, um belo quadro de um corte do Vidal Sassoon, o primeiro a criar a técnica de cortar o cabelo Chanel.

Em uma das salas, Ricardo se deparou com as impressionantes e chocantes cabeças encolhidas de Jivaro (múmias do Equador) e seus cabelos enormes. Próximo ao local, também encontrou duas múmias, da América do Sul, que tiveram os seus cabelos amarrados em volta da cabeça durante o processo de mumificação, como se fosse parte de um ritual. E falando em rituais, em um dos ambientes o que despertou muita atenção foi a presença diferente e marcante do cabelo nos rituais africanos. Ele explica que apesar de rasparem os fios, algumas tribos usavam peles de animais e folhas para representar os cabelos durante os rituais.

Entre os vídeos exibidos na mostra, ele destaca dois. O primeiro no qual era apresentado um mesmo tipo de cabelo ou penteado, no rosto de várias pessoas e em épocas e situações diferentes, cada um com uma expressão. De acordo com o hairstylist, era interessante observar que apesar dos cabelos apresentados serem muito semelhantes, a emoção expressada pela pessoa, fazia com que tivéssemos uma visão completamente diferente dela. http://www.youtube.com/watch?v=Vlyb9pbEb4M

Já o segundo vídeo, exibido em uma sala super escura, trazia imagens do fim da Segunda Guerra Mundial. Realizado em Paris, o filme mostrava o que foi feito com as mulheres que colaboraram com os nazistas, e focava no momento em que elas tinham o cabelo raspado em praça pública. O vídeo era extremamente angustiante, pois mostrava a humilhação e o sofrimento que elas estavam sentindo, ao terem os fios cortados a força e em máquina manual (o que dói muito). Perceber a importância do cabelo para aquelas mulheres, visualizar a dor de ter uma parte de si modificada contra a vontade, gerava um certo incomodo entre os que estavam presentes na sala.

Entre quadros de crianças com cabelos raspados, com mechas emolduradas, com fios envelhecendo até chegar à imagem de uma mulher com cerca de 100 anos e quase sem cabelo, é mais do visível e provado que o cabelo é também uma parte do nosso corpo. Do mesmo modo que a pele fica gasta, os fios também vão perdendo a força e afinando com o passar da idade. Sendo assim, o cabelo de uma pessoa aos nove anos, não será mais o mesmo quando ela tiver vinte, nem o mesmo aos quarenta e nem aos oitenta.

Ricardo conta que foi uma experiência incrível e que aliada aos conhecimentos adquiridos no curso, ele pode perceber o que ia além de uma imagem bonita ou simplesmente curiosa. E o que pode-se concluir dessa experiência toda é que o cabelo faz parte da expressão do nosso rosto. Por meio dele, conseguimos mostrar se estamos tristes, alegres, sensuais, chiques, etc. E que é importantíssimo cuidarmos do nosso cabelo de acordo o nosso rosto e postura profissional. Um bom corte, uma boa coloração e até mesmo um penteado precisam ser pensados de acordo com o formato do nosso rosto, se estamos no peso ideal (ou acima ou abaixo dele), pois o cabelo ajuda a construir a imagem que queremos mostrar para as pessoas e o mundo.

Para fechar essa nossa conversa sobre esse tema interessantíssimo, confira um vídeo muitíssimo bem feito, dirigido pela atris Bárbara Paz e pelo hairstylist Ricardo Rodrigues, que mostra uma música com uma expressão corporal, na qual o foco é o cabelo:

Apresentação Ricardo Rodrigues from David Barkan on Vimeo.

Imagens: reprodução e Ricardo Rodrigues.

Publicado em 25 julho, 2013

One Comment

  1. Posted by Erika Barboza on

    Ricardinho, sempre antenado e dividindo o conhecimento. Adorei tudo, inspirador!!!